Dissolvência- Capitulo IX (Pontos de Interrogação)




Capitulo IX

Pontos de Interrogação


O embalar de uma melodia triste e nostálgica  bela no compasso tremendo e majestoso do rodopiar de uma pequena bailarina dançante no ensaio de uma toda obra talentosamente inspirada, reluzia diante dos olhos que cintilavam em comoção, talvez exagerada, gigantemente exacerbada com o vislumbre da contrariedade patente na bela bailarina cativa nos limites da caixa de madeira que a impedia de brilhar em constelação magnânima universal.
Sempre sentira uma atracção por aquelas caixas de sibilo mágico, embora parte do seu ser, se entristecesse deveras com o reverso e sua clausura, ou pensando e repensado vezes sem conta, talvez porque Jade se revisse e identificasse tremendamente com a formosura e a tristeza da frágil boneca.
Sentiu vontade de chorar mas os olhos apenas espelhavam um mar de água em cristal sustida no brio do sorriso que se lhe desenhou nos lábios carnudos.
Olhou para cima, para a grande cúpula que iluminava a grandiosidade do salão onde se encontrava e fechou os olhos sensibilizados com o raiar que julgara ser do amanhecer.
- Porque me mostraste isto? - perguntou com suavidade permanecendo de olhos fechados indiferente ao seu redor, crente apenas na acalento que a acariciava. Saindo das sombras , de um corredor posto de lado do alcance da luz, o homem ainda sem nome, de aura intrigante e misteriosa aproximou se em silencio fechando a caixa e cessando o conforto da canção que abria todo o coração da mulher diante de si.
Esta abriu os olhos surpresa com o seu gesto, que identificou de imediato como rude.
A luz natural permita-lhe por fim ver o rosto de feições mistas, entre uma clara dureza de linhas e uma pacificidade de energia transbordante que não conseguia identificar, tanto mais decifrar, mas sentia-o e por isso, nos seus costumes e medos, não sentisse até ali qualquer sombra de temor, apenas uma crescente desconcertante avidez por respostas.
- Porque estás a fazer isto? Porque estou aqui? Porque não respondes?? - atirou-lhe no impulso da impaciência que começava a latejar lhe a mente.
- Os porquês...sempre os porquês... - limitou-se a responder-lhe passando pelo seu corpo indignado abrindo de rompante as cortinas pesadas que cobriam a a invasão supra da Luz natural.
Abriu-as num gesto abrupto recolhendo em volta do espaço centenas de partículas de pó visíveis entre o inesperado impacto e a luz que num feixe as projectou.
Jade abriu todo o semblante carregado, atónita com a imagem exterior  que agora conseguia ver  e sobretudo imaginativamente sorver.
Era todo um belo e verdejante jardim repleto de adornos florais e cores vistosas, crescentes em vida e numero, tal como uma imensa presença de arvoredos intermináveis  ou assim de dentro lhe pareceu, rematados por uma grandiosa fonte, no preciso centro, que vertia nos seus repuxos uma agua clara, que no ímpeto do desejo apenas pensava em beber dela.
O estranho Homem observou a sua reacção impassível não revelando de todo o que poderia através do semblante.
- Por favor... Responde-me a alguma coisa - pediu ela com fervor, tentando manter a calma.- Que sitio é este?
- Um sitio de processo... - respondeu lhe apenas vaga mas intensamente, permitindo uma fricção entre ambos os olhares que se entrelaçavam numa disputa invisível. Jade suspirou sentindo se totalmente impotente diante da parca comunicação. Porque nem ali numa situação tão inóspita e surreal não conseguia que a ouvissem? Que se fizesse ouvir numa linguagem simples e clara que amainasse todo o curso do rio de angustia ascendente pelo corpo. Ele era um total desconhecido e mesmo assim não se dissipavam as barreiras pesadas e intransponíveis do monólogo eterno a que se remetia entre ela e ela mesma apenas e só. Sempre.
Perdeu se durante mais algumas segundos diante da beleza natural emoldurada no exterior que a convidava tentadoramente a entrar nos seus esplêndidos recantos.
- Um processo de confusão é claro, como tudo na minha vida seria de esperar... -retirou por fim olhando-o com dureza. - Eu não sei o que se passa mas sei que preciso de respostas e se tu não mas vais dar eu vou-me embora e procurarei por mim mesma! - Afastou se nervosa mas decididamente procurando em volta na grandiosidade do espaço por um sinal de uma porta de saída  Começou rapidamente a desesperar ao constatar que estava rodeada de paredes e corredores imensos, desconectos de qualquer saída exterior. O abalo dessa possibilidade ser real fê-la ofegar em pedaços de ansiedade que já lhe eram bastante familiarizadas.
- Não há porta, Jade.... - confirmou os seus assombros aproximando-se do seu ser desfragmentado tenuemente  com aparência indiferente ao seu pânico efervescente.
- Como assim não há porta? Isto e uma casa tem que ter uma porta! - olhou-o em ressentimento incandescente sentindo o mesmo medo de horas atrás a ressurgir no corpo permeável ao seu assalto.
Ele pousou-lhe as largas mãos nos ombros retraídos apertando-os com suavidade enquanto esta se entregava de imediato ao gesto inesperado debulhando-se em lágrimas.
Estou morta...Morri e continuo presa? - indagou com a voz rouca alterada pelo pranto. Ele moveu o rosto em resposta observando-a como uma interrogação diante do espelho frágil que por ela vertia.
- Tu não estas morta Jade. Tudo fará sentindo na altura certa. Alias essa é uma das grandes aprendizagens que te compete fazer...
Ela abrandou ligeiramente o ritmo do choro deixando a expressão confusa responder no lugar de palavras.
- Tu entregaste ao medo e ao controlo, tens de estar sobre o controle de tudo para te sentires segura, daí a necessidade irascível de ver todas as tuas duvidas respondidas com clareza e precisão, quando tu própria não és clara ou de algum modo segura! Queres extrair dos outros e do mundo o que te falta!E o que te falta...está aqui...
- Aqui? - Replicou em clara descrença continuando a libertar lágrimas embora mais desfasada mente  respirou fundo enquanto tudo o que ele lhe dissera lhe ecoava no interior em amplificação.
- Sim aqui... - anuiu deixando de a amparar - Aqui terás algo que não te permitiste ter até então..
- E isso será?
Por breves segundos ele hesitou e dentro desses mesmos breves estilhaços de tempo Jade jurou ver pela primeira vez um brilho de emoção a visitar-lhe os olhos gélidamente azuis.
- Silêncio...terás Silêncio.




Sarah Moustafa

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