sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Saudade



Vives dentro do tempo
que te foi roubado,
e as heras trepadeiras
bloqueiam entrada
O ar puro , a liberdade
de quem é um pouco louco
E tremendamente apaixonado...

E eu vejo -te
disfarçada de enigma
sou os olhos do teu céu
E a mudança engraçada
Das estações
Que trazem vida ao teu corpo
Toquei nas paredes da alma,
Encriptadas de símbolos
Que espero por séculos,
Que um dia entendas,
E sigas as diretrizes que deixei
do fenômeno do sentimento.

Mas vives tão longe de mim,
nos braços de quem creio que te ame.
Na casa que espero dar-te serenas
e firmes raízes,
Nos sonhos que quero ver-te construir...

Quero tanto o melhor para ti,

As vezes acho que não me mereces
Sou a mais bela mulher e não me quiseste...
Outras acho que eu não me mereço,
Não tenho tamanho
para viver amor assim.

Sou pequena,
um pouco egoísta
Queria-te só para mim.
Ou não ter nada de ti.
Arranquei -te tantas vezes,
e conseguiste voltar sempre ao lugar.
Como se fosses o eixo
de todos os meus desequilíbrios
E promessa de paz,
pela qual vale qualquer Guerra.
Quis extirpar-te,  forçar saída
E todas as tentativas inúteis,
só me trouxeram
olhos marejados
e saudades maiores,

Tenho muitas saudades tuas ,
sinto-te com os seis sentidos.
Já não queria sentir nada.

Mas sinto tudo .
Sobretudo,
Saudade.



Sarah Moustafa


terça-feira, 14 de novembro de 2017

Carta - II



Quando todas as luzes se apagam e paro para pensar na injustiça do breve momento que fomos, as horas estagnam e abrem todas as feridas , como se o golpe fosse sempre o primeiro.
Foi assim tudo tão fugaz? Ou sou apenas eu que não entendo o tempo ?
Será que isto é apenas devaneio que me persegue diariamente ,em jeito de assombração , e de verdade nunca te conheci?
Será que o toque da tua mão na minha pele, a tua boca agressiva roubando o espaço da minha, todos os sítios onde nos encontramos , todos as passos dados,  todas as conversas cheias de palavras encantadas , foram arrepios na espinha, uma fantasia?
As memórias vão se desfragmentado e com elas a certeza de um acontecimento tão longínquo.
Quando te conheci era menina tão ingênua e inexperiente mas sentia uma força que esta mulher tão grande não tem.
A tua ausência deixou um buraco tremendo mas a dúvida de se sequer exististe , mata-me.
E talvez seja isso que queres. Magoar -me mais e mais até não haver sobrevivência que se erga e eu caia aos teus pés completamente inanimada.
Ou talvez só eu me condene por deixar que o coração me guie.
Não lhe devia dar importância nenhuma, devia ser muralha, máquina, escudo , não sentir nem dar amor a ninguém, queria ser imponente, orgulhosa , cheia de ambição pelo mundo estéril e vazio
Ser tão emotiva só me dá palavras, sangue e tormentas.
Gostava de não perder tempo com merdas , como imagino que me dirias.
Sempre desvalorizaste os meus anseios , as minhas angustias , todo o meu universo interior apesar de te fascinar , aterrorizou-te.
Deixei-te numa posição complicada .
Não querias uma mulher tão perceptível daquilo que esconderias, nem uma que te despisse fora da cama. 
Então porque me fizeste acreditar de contrário ?
Porque carregaste nos de tanto desejo e vontade se sabias não me suportar ?
Se te cansei, porque continuaste? E se continuaste ...porque não fui merecedora de um ponto final, de 1 desfecho, um aceno de despedida?
Poderias odiar-me assim tanto ou assim tanto desprezar alguém que quiseste tanto ?
Jurei ao fim de todos os dias, que me adoravas. 
Poderia ser tão cega e não ter olhos senão postos em ti?
O que é que eu fui?
Um caso de verão? Uma aventura?Um passatempo ? um chão? um troféu? uma moeda? uma boneca de trapos?
Porque me mentiste quando eu poderia ter perdoado tudo?
A vidente que me disse seres o Homem da minha vida , antes de cruzares caminho no meu destino, esqueceu-se de acrescentar que serias apenas um instante efêmero e que cruel nunca mais desaparecias de dentro de mim . 
Não sei onde te guardo, onde te deixo, onde me acalmo e liberto.
Dói demais não estares e nunca mais voltares a estar.
Dói demais apenas eu sentir esta enchente quando já te esvaziaste e tenhas seguido em frente.
Dói demais ser trocada por um plano traçado tão rápido e num estalar de dedos já não estar lá.
Dói seres mentira e ainda te sentir verdade.
Dói.
Muito .

E talvez escreva esta cartas na esperança que elas nos venham a sepultar.



 Sarah Moustafa


Tic-Tac



És uma bomba relógio,
nas mãos de quem te segura,
Tic-Tac, Tic-Tac,
Matas quem te ama,
e dizes que a culpa não é tua...

Arma mortal disfarçada
de carinho,
beijos por todo o corpo
arroubos envenenados,
quantos pactos já fizeste
com o Diabo?
Tic - Tac , Tic Tac

És homem de bem com a vida ,
então tens que destruir
a dos outros,
Ver o circo arder,
Fazer algo excitante acontecer !

És o palhaço sorridente
que entretém a plateia
cheio de humor,
que se derrete no camarim ,
quando a maquilhagem
se desvanece
e o espelho é teu confidente
e confirma te 
és tão triste ... não consegues ver?
Tic Tac , Tic Tac

És armadilha ,
sedenta de ouro,
mentiras engravatadas ,
paixões forjadas,
és punhal nas costas,
traição ,
homicídio
de qualquer coração,
mancha na alma,
insuportável memória
que não se cura .
Insanidade,
Turbilhão ...
És mentira...
mentira...
mentira .
Tic-Tac, Tic-Tac

Não prestas... 
Não prestas...
Não prestas .







Sarah Moustafa 

domingo, 12 de novembro de 2017

Mau comportamento


Quando gritavas,
e discordavas
das minhas opiniões
ou corrijas os erros
nas minhas palavras
eu tinha vontade
de te saltar para cima
e de te bater.

Quando me atrasava,
e essa incógnita de paradeiro
te enlouquecia
Com quem ela está?
Pesadelo de mulher,
engolias sapos
e fingias muito bem,
Não querer saber

Quando eu via
as tuas fotografias,
festas , parodia, rodeado
de tantas amigas
eu sentia as lâminas
muitas pontadas de ciúme
a incomodarem-me a pele,
Qual delas estará ele
a ....
Sorria-te de volta,
Tentando não ver

Quando me apoiavas
e tentavas guiar-me até a luz
estavas em alvoroço
e ruínas , querias ajudar-me
mas estavas farto de o fazer,
cansaste -te da menina perdida
querias uma deusa decidida,
que te desse mais chama e vida
e não tiveste coragem de o dizer.

Quando me manipulavas
e deixava-me ser ignorante,
para observar quão longe tu irias
com as tuas mentiras,
eu lamentei só ,
o quanto a verdade era uma máscara,
despedi-me dela
como se não soubesse
o futuro de autodestruição ,
como se não soubesse ler.
O que estava escrito nas entrelinhas
das nossas escolhas.


Fomos muito estúpidos.
Idiotas,
Diabretes...
Crianças mal comportadas
( As piores)
A quem o Universo confiou

Amor .





Sarah Moustafa 


sábado, 11 de novembro de 2017

Amor de Papel




Desenrolei o novelo de mentiras, uma a uma, com cuidado e paciência.
Demasiada.
Demorei em excesso a perceber que o tempo perdido não se recupera
E que mesmo gritando, esperneando, chorando , nada mudaria a realidade.
Do que é como é.
E enquanto gritava, esperneava e chorava, as cores do céu distorceram-se , camaleônicas, e adaptavam-se ao que precisava.
O herói, o menino perdido , O homem que te ama mas não sabe dar voz ao amor, imaginei que me entendeste mal , e que a culpa seria minha ou de outra interferência exterior .
Fui eu que me alonguei nos teus dias? Será que invadi o teu espaço? Será que nao te dei o meu coração e deixei-o ao cuidado das tuas mãos , será que não te fiz perceber que eras sangue novo que circulava por completo em mim ?
Será que não mostrei o brilho nos meus olhos e escondi sorrisos tímidos de uma menina apaixonada?
Será que não agradeci as pequenas coisas que partilhaste comigo? O teu precioso tempo, o interior da tua casa e o calor teu corpo?
Será que te passei a noção que te tomava como garantindo , que brincava ao fica e vai embora , que não te apreciava , que não te queria?
Será que me conheceste assim tão mal quando sentia que me sabias de cor e melhor que outro alguém?
Será , Será , Será...
O céu foi me reanimando memórias e os traços de avião decifrando enigmas, enquanto contemplava tudo o que ficou perdido.
Nunca pus em causa que nada disso importava, se esse nada era o Tudo dos meus dias tristes, onde apenas os braços da solidão me acompanhavam.
Nunca quis colocar em hipótese que tudo o que vi, tudo que senti era mentira.
E que não a culpa não era minha, porque não sendo inocente , eu nunca deixei de tentar.
Eu nunca deixei de lutar pela verdade, pelo merecimento de uma resolução positiva.
Da honra de uma palavra de atenção pela intimidade que te entreguei.
De um desculpa sincero ou um gosto de ti tamanho.
Não, eu não sou culpada se não me viste , se não me quiseste, se não me escolheste.
Retirei o véu negro e olhei me ao espelho, abracei a morte de uma parte minha que levaste .
A inocência tão crédula nos contos de fada e canções de amor.
Abriste a porta do caminho da descoberta ao que sou como Mulher.
Não sou vitima, não posso ser vitima , se continuei a crescer.
Este luto todo foi por mim e pela menina que se deitou na palma da mão de um extenso e inconsciente sono.
Quando despertei e a névoa densa acalmou, eu percebi que não podia iludir-me mais.
Que não podia esperar pelo que não regressa, que não podia forçar-te a querer-me , que não podia desistir dessa nova mulher , e que se te amava , também me amava a mim e ao fruto que ficou desta história.
E a prova que uma parte dela existiu , a parte humana que falha redondamente .
A parte mais imperfeita que tem de aprender aceitar-se pelo todo que é.
É nas páginas do tempo e da vida que ficamos.
E esse é o melhor livro que alguma vez virei a escrever .
E assim se chamará ,

Amor de Papel.




Sarah Moustafa


quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Carta - I




Gostava de te ver apenas uma vez mais e despedir-me dignamente ... beijar-te como deve ser.
E dizer-te que embora partindo não irei a lado nenhum.
Que o mar e a lua se enamoram e que deves crer nas conversas que têm
Que deves sempre acreditar na linguagem do amor ainda que contestado, ainda que te ridicularizem e te denominem de apenas Louco...
Deves sempre saber que te acompanho e eu sei que a estrada é longa , e estás tão cansado e só...
Mas estou aqui na inquieta e inesperada força do amanhã .
Quero dar-te fé e que te lembres que toda esta morte em dias , esta tristeza , esta raiva injusta que nos rasga ao meio e condena...foi apenas rito de passagem de onde nos descobriremos melhores e reciclados. Leves...
Sabe que te amarei sempre como já não se ama ninguém.

De uma forma obscura, real, tremenda .


As palavras são a minha assinatura.



quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Fluido





Os beijos líquidos
são aqueles que ainda te dou,
quando quero a tua boca
bebo do mar salgado
que te levou,
molho-me de saudade,
Oiço um cântico estranho,
Uma espécie de fado

E bebo do vinho,
do copo cheio
transbordante
de carne e desejo,
sorvo do pecado,
de te recordar
em olhos
e desfazer-me em cama,

a pele do meu rosto,
vincada com a pressão
do teu nome,
e almofada que abafa
gemidos
e  outros gritos de dor ,
buscando de novo
âmago e choro ,

para te sentir na boca,
como uma menina
de quinze anos,
de lábios na fronha,
Imaginando
Amor ,
Morrendo de Vergonha.




Sarah Moustafa